Guardiões de histórias

O primeiro dia foi carregado de expectativas. Ainda não sabíamos com qual turma iríamos trabalhar e em conjunto com a direção decidimos ficar com uma turma de segundo ano.  Uma sala com alunos mais velhos onde a maioria não sabia ler, escrever ou fazer mínimas operações matemáticas. Porém , desde o primeiro encontro em que Leandro Pedro fez uma breve sessão de histórias, podemos perceber  o interesse nos olhos de cada um. Durante as histórias eles permaneciam quase que petrificados atentos a todos os detalhes. Davam gargalhadas e gritos de susto com os contos de terror/comédia .

Fomos com uma proposta simples : Contar histórias e brincar. Mas ao decorrer dos dias vimos que eles tinham muito mais a nos mostrar.  Sempre começávamos com jogos em grupo como cabra cega, anel babão, vivo-morto e depois sentávamos para iniciar uma história ( eles adoravam as de terror).

Um dia levamos o livro “Um coração de dois olhos “ de Maria Zilma Barbosa. Era a história de um coração que foi desenhado com olhos. Ele podia ver, ouvIMG-20161101-WA0058ir e falar mas sentia-se só no mundo e por isso pediu ajuda a menina que o criou para procurarem juntos outro coração para lhe fazer companhia . No fim da história pedimos as crianças para desenharem outros corações. Todos aqueles que poderiam existir no mundo, e elas fizeram . Eram desenhos muito expressivos. Lucas, um dos meninos mais
velho , fez um coração de cabelos verdes , mas achou que seu desenho era feio e o rasgou. Quando vimos seu desenho aos pedaços não entendemos porquê ele tinha feito aquilo, mas recolhemos o papel rasgado e o guardamos. Como a maioria não sabia ler nos chamavam bem baixinho para ajudar escrever uma palavra ou outra. Em um desenho escreveram : coração “a paichonado”  em outro “ssoriso”. Eles queriam contar a história de seus corações, apenas ainda não conseguiam fazer isso com a gramática certa. Eram quase trinta desenhos maravilhosos que precisavam ser expostos. Reunimos a equipe para fazer um livro. Juntamos alguns desenhos e fizemos rimas com os nomes de cada criança da sala . “ O coração da turma” o primeiro livro feito por eles. Foi maravilhoso ver o rostinho de cada um ao ver um livro com seus nomes e desenhos. Agora eles podem levá-lo para casa ou pegar para ler na sala de leitura.

Cada semana era um novo desafio. Percebemos que a carência afetiva era mais forte que a financeira. A E. M. República Dominicana fica na favela da Serrinha , um lugar muito pobre e violento. A maioria dos pais trabalha o dia inteiro e as crianças quando não estavam na escola ficavam ou em casa sozinhas ou na rua . Algumas eram mais rebeldes, agressivas e impacientes, mas todos eram muito amorosas , sempre nos abraçando e dizendo que nos amavam.

A coordenadora pedagógica fazia questão de deixar livros no pátio , nas salas de aula e mesmo não
sabendo ler muitas crianças pegavam os livros e ficavam folheando as páginas por algum tempo. A sala de leitura era um ambiente ótimo e nós fazíamos questão de sempre fazer alguma atividade lá. Separávamos algumas caixas e as crianças pegavam vários livros que iam lendo ali mesmo no chão. Os que tinham mais dificuldade
se aproximavam dos oficineiros  para escutar as histórias. E eles sempre queriam mais , mais uma história , mais um desenho , mais brincadeiras. Sempre sorrindo e até mesmo os mais bagunceiros acabavam participando da brincadeira.20161024_151827

A escola possui uma sala onde ficam guardados vários brinquedos para o recreio, mas são poucos os que eles realmente usam . Então fizemos
uma pista de obstáculos com o máximo de elementos que encontramos na sala. Uma das brincadeiras que eles mais gostaram foi a da corda laser , onde eles tinham que pular por cima da corda ou engatinhar para não encostar nela.

Separamos alguns dias para confecção de brinquedos simples
como o “barangandão” um brinquedo com fitas coloridas na ponta de um barbante que ao girar se assemelha a um arco-íris e ao preparo de bonecos de caixa de leite, mas nossos alunos quiseram fazer monstros e assim fizeram e das caixas surgiram piratas, princesas horríveis e sem dentes e alguns bonecos retalhos .

Durante esse período tiramos muitas fotos de nossas atividades e aproveitamos para terminar o projeto com uma linda lembrança. Confeccionamos em aula álbuns com as fotos dos dias de oficina. Foi uma grande festa e cada um pode levar apara casa seu próprio álbum da turma. No final nos abraçamos tentando não chorar e com a certeza de que levaremos essa turma em nossos corações.

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