[Entrevista p/ Geração Light] – Leandro Pedro conta sobre ser Contador de Histórias

Este mês a geração Light publicou uma entrevista com Leandro Pedro, sobre o processo de se tornar contador de histórias, segue a entrevista na integra:

Quantas não são as pessoas que sonham em viver de arte, não é mesmo? Viver esse sonho nem sempre é fácil e pode ser um grande desafio. O ator Leandro Pedro encarou as adversidades e conseguiu investir no seu ideal. Ele é um dos instrutores do curso de formação de contadores de histórias, parte do projetoTerritórios Culturais RJ, resultado de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro com a Light, que amplia para outros municípios o alcance do programa original, o Favela Criativa.  A iniciativa busca formar uma trupe de contadores de histórias para fomentar a cultura em diversas comunidades, como a que Leandro foi criado quando pequeno. O pontapé inicial do projeto começa já neste mês, dia 15, no Morro do Turano.

Meu sonho era fazer algo ligado à arte, mas eu, menino pobre e morador da favela, iria fazer arte? Como eu iria sobreviver? Sempre tive a informação errônea de que artista não ganha dinheiro, principalmente artista pobre!

O ator, que sempre quis viver de teatro, chegou a desistir do sonho para seguir uma carreira tecnológica. Após muitos anos descontente, redescobriu a sua paixão na oficina “Brincar e Contar Histórias”, criada junto a uma amiga. Daí então, Leandro largou seu emprego e criou uma produtora cultural com seu nome, a Leandro’s, investindo seu tempo em trabalhos lúdicos que envolvem a contação de histórias, educação e literatura.

Me encontrei profissionalmente e carrego comigo uma frase que sempre digo para os meus alunos: “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida”, do pensador chinês Confúcio.

Essa motivação encantou o Geração Light (nós amamos contar histórias também 😉 ), e hoje, viemos mostrar o bate-papo que tivemos com ele para saber mais do que está por vir neste novo projeto. Confira!

 

Geração Light: Para você, quais são as boas histórias?

Leandro: Histórias nossas do cotidiano. Nascemos contadores de histórias, uns com mais vergonha e outros nem tanto. Mas todos têm boas histórias para contar. Muitas vezes, presto atenção nas histórias contadas dentro dos ônibus e metrôs e fico fascinado em ver duas pessoas rindo delas mesmas, de um parente torto ou se irritando ao contar um acontecimento de trabalho. Gosto de ouvir elas contando os detalhes. Hoje mesmo, sentei ao lado de uma senhora que ligou para uma amiga para dizer que a cabeça de alho no mercado estava maravilhosa. “Um cabeção enorme”, ela disse e eu ria, internamente, com tantos detalhes de uma simples cabeça de alho.

 

GL: De que maneira o acesso às diferentes narrativas transforma a sociedade?

Leandro: A única coisa que temos de concreto são histórias. Sei que essa frase parece estranha à primeira vista, mas vou tentar explicar: Quando morremos, deixamos alguns objetos, mas esses objetos, sem história, são meramente objetos comuns. Um exemplo disso é um quadro do pintor Van Gogh, que não teria nenhum valor se não carregasse consigo a história do artista que o fez.

As histórias são vitais, elas podem mudar e construir sonhos em uma criança ou adulto. Elas nos levam a querer conhecer locais que parecem impossíveis. Na nossa jornada, vamos nos inspirar em diversas pessoas para construir nossos caminhos e todas essas inspirações são somente histórias bem contadas.

As histórias criam guerras, criam deuses e religiões. São verdades de um povo e de uma cultura. Diferente das formigas, somos seres completamente distintos uns dos outros, porque somos diariamente afetados pelas causas uns dos outros. E, assim, vamos nos transformando por meio das histórias.

Circuito Favela Criativa - Leandro Pedro

GL: O curso de formação busca criar uma pequena trupe de contadores. O que é preciso para ser um contador de histórias?

Leandro: É preciso saber que você está entrando num terreno muito delicado e precioso.  Muitas vezes as histórias têm significados profundos.  Um contador tem que ter cuidado na fala e cuidado, também, ao escolher uma história. Diferente do teatro, a contação é intimista, você olha nos olhos das pessoas do público e esse olhar não pode ser vago. A história contada não pode ser irrelevante para quem a ouve, se não, se torna algo chato e monótono. O contador tem que aprender a cativar com os olhos e seduzir com as palavras.

 

GL: O que você diria aos jovens que gostariam de ser novos contadores?

Leandro: Vocês terão domínio de uma incrível ferramenta de mudança, a palavra. Cuidado! O manuseio errado da mesma pode causar danos irreversíveis.

Biblioteca Popular de Campo Grande - Leandro Pedro

 

As inscrições para o curso de formação de contadores de histórias estarão abertas até o dia 8 de março. Para mais informações, acesse: http://leandros.com.br/formacao-contadores/.

 

Leandro Pedro tem 24 anos, morador da comunidade do Turano/RJ, fundador da produtora Leandro’s e Sócio-fundador do grupo de contadores de histórias Ih, Contei! Desde 2004, é ator e contador de histórias e realiza sessões e oficinas de contação de histórias pelo Brasil.

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